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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

LAMPIÃO

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Endereço da gravura:http://povodearuanda.files.wordpress.com/2007/10/ze-e-lampiao.jpg
LAMPIÃO: 70 ANOS DEPOIS
Uma trilha de terror e fascínio
Publicado em 28.07.2008

Sob o calor do Sertão dos coronéis, Virgolino deixou rastro de medo e fez fama mundial


Wilfred Gadêlha
[EMAIL]wgadelha@jc.com.br

[/EMAIL]Cangaço: palavra tipicamente nordestina, com origem no termo “canga”, utensílio de madeira usado em animais de carga e montaria. À semelhança dos burros e cavalos, o bandido do Sertão também era arreado, carregando armas, bornais e pertences do dia-a-dia. Andando pelas caatingas, atacando vilarejos, fazendas e cidades, fugindo e enfrentando os inimigos, o sertanejo que caiu na vida de crimes se fez mito em vida e em morte, levando terror e fascínio a milhares de pessoas Nordeste adentro.

As origens do cangaço se perdem nos séculos anteriores à independência do Brasil. Com as primeiras incursões ao Sertão, uma realidade e uma moral distintas das existentes no Litoral e na Zona da Mata ganham fôlego numa terra desde sempre sem lei, dominada pela ponta do punhal, em que o mais forte impunha sua vontade às massas de desassistidos. Coronéis donos de terras a se perder da vista, coadjuvados pelos jagunços, que faziam da violência meio de vida a mando da nobreza sertaneja.

Os cangaceiros não nasciam bandidos. Muitos foram forçados a se “alistar” no cangaço por injustiças cometidas pelos maiorais da região, por crimes de honra e vingança ou ainda pelo fascínio que bandidos famosos exerciam sobre enormes contingentes de miseráveis do Semi-Árido. “Talvez o que exista em comum a qualquer cangaceiro seja a desculpa de ter sido direta ou indiretamente forçado a “pegar em armas”, no intuito de “vingar alguma afronta” sofrida. A vingança – seja ela efetiva e real ou simplesmente usada como desculpa para legitimar a atividade criminosa – acaba por se tornar um ponto presente no discurso da quase totalidade dos cangaceiros”, assinala o juiz potiguar Sérgio Dantas, autor do livro Lampião e o Rio Grande do Norte: a história da grande jornada.

Outros viam no cangaço um meio de vida. Diante das perspectivas quase nulas de ascensão social no Sertão, virar cangaceiro garantia dinheiro e notoriedade. Bandidos profissionais que faziam do assalto, do ataque e da extorsão uma fonte de renda. Isso quando não se abrigavam sob a asa de coronéis lendários, a exemplo de José Abílio, Veremundo Soares ou Izaías Arruda.

Virgolino Ferreira da Silva (pela certidão de nascimento, seu nome se escreve com “o”), Lampião, não foi o primeiro cangaceiro mas foi o mais importante. Antes dele vieram outros. José Gomes dos Santos, Cabeleira, semeava o medo no Sertão e na Zona da Mata pernambucanos ainda no século 18. No século 19, surgem outros bandidos que ficaram famosos. As estripulias do baiano Lucas da Feira, enforcado em 1848, levaram-no à presença do imperador d. Pedro II, que quis conhecer o bandoleiro antes de a sentença de morte ser cumprida. Jesuíno Brilhante, fazendeiro que tomou o caminho do banditismo em 1877, durante uma das mais impiedosas secas do Nordeste, tornou-se um mito por atacar comboios do governo e distribuir os víveres para os esfomeados. Morreu em 1879, assassinado pela polícia na Paraíba.

No fim do século 19, surge o maior cangaceiro pré-Lampião: Manoel Baptista de Moraes, alcunha Antônio Silvino. Pernambucano de Afogados da Ingazeira, vagou pela caatinga entre 1899 a 1914, quando foi preso pelo então alferes Theophanes Torres. Cumpriu pena na Casa de Detenção do Recife até 1937. Solto, não voltou mais ao cangaço e morreu em 1944.

Lampião estréia no cangaço sob as hostes de Sinhô Pereira, herdeiro de família importante de Vila Bela, hoje Serra Talhada (PE). Sinhô adentra o banditismo por questões familiares – a briga com os Carvalhos. Das primeiras querelas com os vizinhos Nogueiras, entre 1916 a 1920, quando adere ao grupo de Sinhô Pereira, fala-se em uma fase protocangaceira de Virgolino. É quando seu pai é executado, em 8 de junho de 1920, pela polícia, em Água Branca (AL). “José Ferreira morreu pelo fato de o filho ser cangaceiro. Lampião já estava com ‘questões’ (rixas, na linguagem sertaneja). Já o pai era inocente. Não havia motivo para tê-lo matado. Um absurdo da polícia. Naquela época, um sujeito que tomasse tapa na cara e não reagisse tinha que sair da região, porque estava desmoralizado”, justifica Antonio Amaury Correia de Araujo, autor de dez livros sobre o cangaço. Quando, em 1922, Sinhô Pereira deixa a chefia do bando. Lampião assume, aos 24 anos. Suas venturas e desventuras duraram mais 16 anos. Sua fama continua viva sete décadas depois.

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